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Pitbull, tu de novo?

Foi sem surpresa que assisti ao vídeo da senhora deitada no chão em sofrimento, com o corpo dilacerado e com pedaços de carne em falta. É mais um de muitos e não será, seguramente, o último.

Desta vez foi uma senhora. Na vez anterior foi uma criança. Quem será o próximo?

A discussão vai voltar novamente à praça pública, sobre se esta raça ou aquela é perigosa, se a culpa é do cão ou do tutor/dono, se as condições isto aquilo. As opiniões vão-se basear em percepções pessoais enviesadas ou em dados brutos não interpretados. Vão-se criar regras e leis impraticáveis e tudo vai ficar na mesma. Assistiremos a mais um vídeo num futuro próximo de alguém que perdeu a vida ou ficou gravemente mutilado. Se calhar, alguém que nos é próximo. De mim, ou de ti!

Existem alguns estudos científicos que nos trazem alguma informação nova sobre o que se passa. E confirma outros dados que já sabíamos. O mais recente, da School of Veterinary Science da University of Liverpool, conduzido pela Dra. Carri Westgarth é absolutamente fenomenal e esclarecedor.

Antes de tudo, é preciso esclarecer que as mordidas não são todas iguais.

Há mordidas leves, normalmente fruto de brincadeiras com os cães, que acontecem sem intenção. É o dente do cão que raspa a pele mas não cria golpe profundo nem ferida aberta. É simplesmente um acidente sem intenção. Não precisam de intervenção hospitalar.

As mordidas moderadas, são intencionais. São feridas ligeiras mas que perfuram a pele e a carne da pessoa. Normalmente, são fruto de situações em que o cão é colocado em situação de stress e ele mostra que está desagradado com a ação do humano. É a “mordida aviso”, do tipo morde e larga. Na essência, o cão não quer fazer mal à pessoa mas ele julga que é a única possibilidade que tem para fazer o humano parar de fazer o que ele não gosta ou para se afastar. Estas mordidas, necessitam de intervenção hospitalar para evitar infecções.

Finalmente, as mordidas severas, que causam feridas graves e muitas vezes fatais. São os ataques que não param até a vítima ficar dilacerada, imobilizada, sem vida. São ataques, puros e diretos. São a forma mais pura de violência. Estas feridas, precisam de intervenção hospitalar prolongada. Ou de morgue…

Um dos dados novos deste estudo (baseado em dados de Inglaterra) é sobre as raças de cães que mordem mais. O conhecimento popular, amplificado pelas redes sociais, dizem que os cães da raça Chihuahua são os mais agressivos e os que mordem mais. É um mito como tantos outros que se espalham pela internet. Os factos, dizem-nos que os cães que mordem mais são os French Bulldog, o Shih Tzu, o Jack Russell Terrier, o Staffordshire Bull Terrier e o Pastor Alemão. Note-se que morder mais não significa morder pior, nem causar mais danos, nem serem os mais perigosos. A verdade é que cães mais populares, que existam em maior número, vão ser responsáveis pelo maior número de mordidas, sobretudo leves.

Relativamente às mordidas severas, o estudo diz-nos que as raças que causaram mais óbitos aos humanos em Inglaterra, de 1991 até 2024, são as seguintes: American Bully XL, American Bulldog, Staffordshire Bull Terrier, Rottweiler, American Pitbull Terrier e Pastor alemão.

Em ambos os casos, são factos, não opiniões. São números baseados em relatórios policiais e hospitalares. Em matemática, 1+1 é sempre 2, independentemente da nossa opinião pessoal.

Os estudos existentes de outros países, como Estados Unidos, Áustria, Austrália, etc., mostram, exatamente, as mesmas raças como as que são responsáveis pelo maior número de vítimas. Será coincidencia? Que resultados teríamos se fizéssemos o mesmo estudo em Moçambique?

Outras percepções erradas citadas no estudo são de que “não há cães maus, apenas maus donos” ou “não é a raça, é como se cria”, os “donos são irresponsáveis”, “a vítima fez algo”, “a mim nunca vai acontecer isto”, etc.

A verdade é que nenhum dono admite que não é responsável, apesar de cada um lidar com o cão à sua maneira. Ser responsável, para a maioria dos donos, significa “eu é que sei!”, mesmo estando totalmente errado. Ou afirmar “que sempre fiz assim”. Ora, fazer muitas vezes ou sempre errado, não é motivo para ganhar medalha.

O mesmo se aplica para donos que dizem que a ele nunca vai acontecer. São centenas os vídeos nas redes sociais de donos que garantem que o seu cão nunca lhe faria mal, ou aos seus, mas acabaram severamente atacados. A esmagadora maioria, donos de cães tipo Bull.

Estudos genéticos garantem-nos hoje que há diferenças entre as raças. O último, separou um gene em que cães boiadeiros têm genes alterados (por seleção artificial) que as outras raças não têm, ou têm com menor incidência. Foram estudadas raças como Border Collie, Pastor Australiano, Australian Cattle dog, entre outros. É a genética que influencia a sua vontade avassaladora, noção de espaço, interação com humanos, a sua capacidade de trabalho, a sua coragem de pastorear animais muito maiores e mais fortes. E isto, desde cachorrinhos, muito antes de serem treinados. Voltarei a este assunto numa outra publicação.

Embora não provado ainda pela ciência, sabemos de forma empírica, sobretudo para quem trabalha diariamente com cães, que há diferenças significativas entre algumas raças. É uma questão de tempo até que existam certezas provadas de que a forma como se cria, apesar de ter peso no temperamento geral do cão, não elimina o material genético do mesmo.

O que está provado, é que cruzar cães agressivos, independentemente da raça, cria também cães agressivos e/ou reactivos. Sejam pits ou golden retrievers.

Sobre a raça responsável pelo último “acidente”, alguns leitores virão com o argumento de que algumas raças eram “nanny dogs” há cem anos atrás, baseados em algumas fotos antigas. A verdade é que este mito tem origem nas populações que trabalhavam na instalação dos caminhos de ferro nos Estados Unidos. Eram meses de trabalho duro em que o acampamento mudava de sítio frequentemente, avançando com os carris conforme eram colocados. Na altura, não havia muito para fazer nestes acampamentos. Uma das formas de passar tempo, eram as apostas nas lutas de cães organizadas, ainda legais na altura. A forma de preservar os grandes feitos dos vencedores, como se fosse um troféu, era tirar fotos dos cães campeões com as crianças da família. Basta uma qualquer foto para perceber isto e que as crianças estão em quase todos os casos com medo dos cães. A verdade é bem diferente. Estes cães foram criados para violência com outros animais.

Por cá, em Moçambique, é muito usual termos os cães errados, nas situações erradas, para fins errados, com educação errada ou na maioria dos casos sem educação nenhuma. Donos de cães que não são donos, que não têm qualquer relação com o animal atirando a responsabilidade para um dos empregados da casa, ao qual não deram formação alguma.

Por outro lado, a maioria dos “criadeiros” (porque criadores temos muito poucos) são jovens e jovens adultos que fazem o que fazem sem nenhum ou pouco conhecimento, tendo como objectivo principal o lucro financeiro. “Criam” cães como se de galinhas se tratasse.

Temos a obrigação de fazer mais e melhor. Temos que evitar os ataques graves e mortais que se multiplicam todos os anos. Contudo, não adianta proibir ou banir certas raças. Por onde se tentou fazer isso, está provado que não funciona. Não porque as medidas sejam más, mas porque há sempre maneiras de contornar e aproveitar a falta de fiscalização. Banir uma raça não elimina os cães, faz com os donos se sintam alvo de uma campanha contra si e contra os seus cães. Este estudo descobriu que os cães banidos são apenas “escondidos” do sistema, não registados e muitas vezes não seguidos por médicos veterinários por receio de serem denunciados. Aumenta o problema de saúde pública. E aumentam as mordidas, dado o stress que é colocado nos cães que já não podem sair, frequentar locais públicos, correr em parques, etc.

Não esqueçamos que, como escrevi em cima, um dono irresponsável acha sempre que é responsável, que os problemas só surgem aos outros e que os cães, como os filhos, nunca são culpados.

É urgente mais e melhor educação. Por isso mesmo, a Dogs & Humans – Aprendendo Juntos oferece há algum tempo cursos a baixo custo para donos e empregados responsáveis pelos cães da casa. Está na altura de parar de pensar que sabemos tudo e de que não precisamos de ajuda para aprender a lidar com o cão. Ou que basta ver uns vídeos no instagram, no tik tok ou youtube.

Se o cão é um filho, devemos fazer como fazemos com as nossas crianças. Mandá-las para a escola, com treinadores responsáveis e éticos que usem as técnicas modernas baseadas na cooperação e não na violência da submissão.

Artigo originalmente escrito no facebook a 7 de Agosto de 2025

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